Mucandas

Por via de um angolano, natural de Benguela, o João Atanásio Almeida, chegou-me um texto do Ernesto Lara Filho que, pela sua qualidade e pelo profundo amor que revela pela terra que o viu nascer, não resisto em divulgá-lo, através do site da “nossa” Casa, a CASA DE ANGOLA.

Benguela também conhecida por Cidade das Acácias Rubras.

Fotos retiradas do sitio - www.cpires.com

Quem conheceu, pessoalmente, o Autor, sabe que este “viajava”, a maioria das vezes, pelo astral, na companhia de outros divertidos boémios, o Jara, o Moura Relvas (mais conhecido por Zé Moka), o Daniel, o Spínola (não confundir com o general) que faziam da “Versalhes” (não a de cá, mas a de lá), do “Pólo Norte” e da “Petisqueira”, “foruns” de convívio e de abastecimento, nos quais, de quando em vez, participavam alguns mais atilados (não atilados, em absoluto, mas comparativamente), tais como o Eduardo Nascimento, o Joe Mendes, o Juka brasileiro (assim designado, por se vestir, habitualmente, de branco), o Calita Dias, o Troufa Real, os manos Sabrosas, os Menezes (Moisés e Nita), o Charula, o Zé Manuel da Nóbrega e eu próprio, tudo isto à mistura com alguns cabotinos, que sempre pululam em tertúlias intelectuais, dando-lhes um certo colorido: que me perdoem alguns outros por não os nomear (a memória vai-se esvaecendo), estejam eles lá onde estiverem … Ali se discutiam assuntos “transcendentes” entre duas, três e mais cervejas, gracejava-se, falava-se das raparigas mais bonitas do burgo (tema inesgotável) e, pelo meio, discutia-se literatura e política, com a mesma paixão com que as gerações de hoje discutem futebol.

É tempo de terminar, porque a não fazê-lo, receio que esta introdução se torne mais longa (fastidiosa, indiscutivelmente) do que o escrito assinado por esse jornalista e escritor invulgar, que foi o ERNESTO LARA FILHO.

H. Baptista da Costa

 

Mukanda de Amor para Benguela

por Ernesto Lara Filho

 

ABERTURA --- Esta crónica é integralmente dedicada a Benguela, no ano do seu 350º aniversário. Foi feita a pedido do redactor principal, João Fernandes. Tenta apenas ser uma modesta homenagem do cronista à terra onde nasceu e onde desejaria ser sepultado um dia. Foi escrita com os farrapos da saudade a tremular nos bicos mais altos do coração, com as reminiscências da infância a reluzirem nos quintalões da nossa memória. Dedico-a aos novos de Benguela com o carinho de um patrício que, embora longe, não esquece a cidade que lhe serviu de berço. Onde bebeu as vivências que agora atira para ao papel.

NOTA --- Na guitarra, o Santos “Chicuamanga”, empregado camarário de Benguela, tocando música de fundo. A crónica deveria ser ilustrada por uma aguarela do Mário de Araújo e uns bonecos do Roberto Silva, mostrando o Mercado Municipal, alguns aspectos do Bairro Benfica e da Rua Cinco de Outubro, com fotos de casuarinas da Praia Morena, feitas pelo fotógrafo Luís de Camões, o poeta desconhecido de Benguela. A locução ficará a cargo de Francisco José dos Santos, o Zeca Santos, do Rádio Clube. Uma acácia rubra tem de aparecer em primeiro plano. O Sombreiro. E um carro puxado a mulas do tempo do velho Fragoso. Declamando poemas, voz longínqua e arrastada do Aires de Almeida Santos, dizendo “Meu Amor da Rua Onze”.

1 - Benguela foi sempre berço de gentes bem portuguesas, foi sempre franca a colaboração com os governos, mas os seus cidadãos, foram também e sempre, ciosos dos seus deveres e direitos, e, através de todos os seus passos, o afirmaram desassombradamente.

Homens como Manuel de Mesquita que fundou o jornal mais antigo de Angola – “O Jornal de Benguela”; Adolfo Pina, notável jornalista e fundador do diário “A Província de Angola”; António da Costa com o seu prodigioso Cassequel a dar açúcar até hoje; Bernardino Correia a fundar a Companhia Colonial de Navegação, quando a situação dos transportes marítimos portugueses era precária nas ligações com as províncias ultramarinas, para drenagem dos produtos de Angola para a Metrópole e para o Estrangeiro; Sousa Lara com o açúcar do Dombe; General Faria Leal que está sepultado em Benguela. Todos eles passaram pela cidade da minha infância e com a sua passagem pontilharam com obras vivas, ainda hoje, um período da vida benguelense que a projectou para sempre na história de Angola.

2 - Benguela foi a primeira cidade de Angola que teve luz eléctrica, água encanada e telefone. Telefones esses que foram mais tarde levantados para irem servir Luanda. Benguela tinha um grupo de homens que pertencia ao Grémio Luzitânia, que tanto fizeram por ela, que é como quem diz, por Angola. Benguela foi a cidade de onde partiu a ideia da criação de um imposto para a construção de um Palácio de Comércio, que mais tarde deu origem à criação, à construção de outros Palácios de Comércio, espalhados hoje por toda a Angola. Foi a primeira cidade a ter um Jardim-Escola. Benguela, não tendo um campo de aviação em condições, em arrancadas bairristas, de cunho puramente regional, conseguiu, da bolsa particular, fundos para a construção do que é hoje um verdadeiro Aeroporto, o nosso magnífico DOKOTA.

Benguela, a cidade de quem o Governador Marques Mano, falando na Câmara Municipal da cidade, afirmou um dia:
”Não se encostam cidades como Benguela a uma parede para se fuzilarem...”

3 – Benguela é uma cidade tão democrática que, antigamente, a Direcção da Associação Comercial ia cumprimentar a Direcção da Associação dos Empregados de Comércio, no dia do aniversário desta e igualmente os empregados retribuíam, quando a patronal festejava o seu. É até uma cidade onde as duas Associações ficam frente uma da outra, e bem perto, uma rua apenas as separa, como que querendo dizer que os revezes da vida por vezes levam os sócios da patronal para a dos empregados, como que a indicar que a vida faz por vezes os homens transitarem de uma para a outra, descendo a ladeira da estrada da existência.

Tão democrática, repito, que o Director do Caminho de Ferro de Benguela vinha de comboio do Lobito, para conferenciar com o Governador do Distrito, trazendo a sua bicicleta no comboio e seguindo para o Palácio de Governo, pedalando debaixo das frondosas sombras das árvores da cidade. Tão democrática, que o Governador, depois de encerrado o expediente, ia para a cervejaria do Madeira jogar os dados com os frequentadores habituais e ali ouvia de perto todas as reclamações dos habitantes. Onde, ao meio-dia, uma peça dava o tiro anunciador da hora, até que um dia, de tão velhinha, rebentou e nunca mais anunciou a hora de largar o trabalho. Onde a Câmara tinha um belo landeau puxado por rica parelha de muares para irem buscar os vereadores para as sessões. Onde havia uma parteira velhinha, Palmira Capela, que pôs tanto menino no Mundo, e acudia pressurosamente noite e dia às parturientes, no seu carrito puxado a mulas.

4 – Foi Benguela a primeira cidade de Angola a ter um dispensário de puericultura para os nativos. Foi Benguela que, numa arrancada brilhante, construiu um dos maiores hotéis de Angola – o MOMBAKA. Foi Benguela que teve a primeira estação emissora de rádio – o Rádio Clube de Benguela – de toda a Angola. Onde o asfalto se aplicou com antecipação. Onde o Chiquito e o Boy, africanos das famílias mais tradicionais de Angola, davam as suas rebitas de elevada organização. Onde havia homens de fôro de valor e talento superiores da categoria de um Dr. Amílcar Barca Martins da Cruz, Dr. António Durães e Dr. Aguiam.

5 – Houve uma altura em que, quando o Caminho de Ferro de Benguela estava numa situação financeira muito crítica, no tempo em que era Director Mariano Machado, foi Benguela quem resolveu sugerir e permitir um aumento de tarifas, mas destinando-se esse aumento à compra de material circulante, para o que o valor do aumento das referidas tarifas era separado da receita geral. Onde no dia do aniversário da Implantação da República, 5 de Outubro, se organizavam cortejos cívicos, em que tomavam parte todos os habitantes e autoridades, e iam junto do Governador apresentar cumprimentos para depois dispersar.

Benguela, que no tempo do célebre movimento da conversão da moeda se manteve íntegra, sendo preciso vir de Luanda como emissário o velho Joaquim Faria – fundador de “O Comércio” – para se abrirem os estabelecimentos comerciais que se encontravam encerrados há mais de dois meses.

 

6 – Benguela de Roberto Silva e do Mário Araújo, pintores. Benguela do Aires de Almeida Santos e Alda Lara, poetas. Do Ralph Delgado, historiador. Do Tadeu Bastos, escritor. Do Gastão Vinagre, do Albuquerque Cardoso – que lá publicou o primeiro jornal desportivo de Angola -, do Américo Aleixo, do Centeno, do Carmona – do monóculo – do Dr. Fausto Frazão, o autor da famosa letra da não menos famosa canção “Coimbra, menina e moça”. Benguela das Pescarias e das Traineiras, da Lupral e das fábricas de conservas, da Metalúrgica do Guerra, que tantas e tantas fábricas de desfibra de sisal construiu. Das fábricas de refrigerantes, da velha Alfândega por onde passaram milhares e milhares de toneladas de borracha, nos primeiros tempos da colonização. Benguela dos dias de São Vapor, em que as carreiras que faziam escala na cidade eram anunciadas, ao chegarem os navios, por um tiro de peça.

Benguela da Igreja de Nª Sª do Pópulo, o mais antigo monumento representativo do barroco colonial da África Ocidental, hoje considerada Monumento Nacional com mais de 200 anos e que tem um altar todo em prata.

Benguela do Vale do Cavaco, de superior importância, a maior estufa natural de Angola, como alguém já lhe chamou.

Benguela do PORTUGAL, clube da bola de que foi sócio nº 1 o Joaquim Branco, que adoptou há mais de 40 anos, as cores na camisola às riscas pretas e brancas, símbolo de união entre duas raças.

Benguela do Padre Scherring, do Professor Santiago da Escola da Liga, do Correia da Silva, poeta, da morena Esperança, do Ramos, chófer do Palácio, do maxibombo das colónias balneares, das mangueiras frondosas, das pitangueiras, fruta-pinha e sápe-sápe, das serenatas em noites de luar, do pôr-do-sol no Sombreiro, dos passeios ao 27 – Damba Maria, que nome tão lindo escondendo uma lenda não menos linda -, do Bairro do Benfica e da Rua 5 de Outubro, do Cassôco e do Casséque, da Massangarala e do Quioche, das cajajeiras e dos quintalões – eu daqui, de longe, te saúdo.

Benguela, a terra em que nasci.
(A música vai-se apagando em fundo e é substituída pelo dedilhar de um quissange. Vai-se ao Bar Guimarães, pedem-se umas ostras e mariscos, bebe-se cerveja e comentam-se as comemorações com que Benguela afirma a toda a Angola a sua vitalidade. Diz-se mal da Câmara, dos homens mais representativos da cidade, porém... colabora-se.)

in “NOTÍCIA”, Ano VIII, Nº 390, 27 de Maio de 1967 - Número de recordação dedicado a Benguela.
(Contribuição de Júlio Centeno Largo.)


Esperança …

Quando, por razões imperiosas ou sentimentais, me desloco a Luanda, mal me revejo naquela terra, onde nasci e vivi mais de metade da minha existência, certamente os meus melhores anos. Poucas são as referências propícias a sentir-me “em casa”; a maioria dos meus amigos, ou já morreu ou, tal como eu, dali partiram (no entanto, é Angola que eu verdadeiramente amo e é pelos angolanos que eu, normalmente, “torço”).

Mas, pior ainda, continuo “estrangeiro” neste Portugal de acolhimento, cujos padrões morais me surpreendem e a mentalidade das suas gentes me é, muitas das vezes, adversa e incompreensível. Reflectindo sobre tudo isto, vem-me à memória um Amigo (melhor, um cunhado já falecido) que, nos idos tempos, viajava incessantemente entre Angola, onde nascera e Portugal, terra de seus pais (sempre de barco; recusava-se a entrar num avião. Lembras-te, São?), pois era nos dez ou doze dias que duravam as viagens por mar, que se sentia mais feliz: no fundo, “condenava-se” a viajar, para cá e para lá, para cá e para lá, tal como essa personagem mítica designada por “Holandês Errante”.

Alguns indivíduos afirmam-se “cidadãos do mundo”, o que de tão ouvido se tornou um lugar comum e, até, uma forma de pedantismo. Não cairei nesse fácil pecado, mas é verdade que a minha alma paira, algures, num limbo, isto é, nem em Angola, nem em Portugal. E a isso estarei condenado, até ao fim dos meus dias...

Hoje, ocorrem, em Angola, eleições legislativas: necessariamente, isso leva-me a nela pensar, redobradamente. Seja lá o partido que ganhar, é importante que os governantes olhem pelos seus desvalidos, atenuem a sua miséria e proporcionem-lhes o mínimo necessário a que um ser humano possa viver com dignidade. Não serão, só, as amplas auto-estradas, os arranha-céus, as avenidas rasgadas, os hotéis de luxo, as fábricas gigantescas, que farão a grandeza do líder: obra maior, única e que o consagrará perante a História e aos olhos de Deus, serão as medidas que diminuam, drasticamente, o sofrimento do seu Povo, desses verdadeiros “mendigos de milagres” de que falava Virgil Georghius, que mal sobrevivendo às condições adversas, dramáticas, em que estão cronicamente mergulhados, ainda conseguem rir e dançar, infantilmente, de olhos confiadamente erguidos para o líder e que continuam a acreditar que não é inevitável que tudo se mantenha na mesma. E também eu, no meu íntimo, quero acreditar que não. Viva a Pátria Angolana, tão rica para alguns e tão pobre, para tantos…

H. Baptista da Costa
05 Set.2008





Segunda-Feira passada, comemoraram-se 33 anos sobre independência de Angola: confesso que números há que me agradam especialmente – porquê, não sei dizê-lo – e o 33 é um deles (outros, são o 7 e o 17 e mesmo o 13, apesar da má fama, não me amedronta e, até, com ele simpatizo).

33 anos é quase metade da existência humana (dizem-no as tábuas de mortalidade). Mas, em termos de uma Nação é muito pouco, convenhamos.

Numa rápida retrospectiva do que de mais importante se registou ao longo desse período, avulta (infelizmente …) a guerra civil que ensanguentou a Nação, guerra fratricida, longa e cruel que vitimou centenas de milhar de angolanos. Alcançada, não há mais de meia dúzia de anos, a Paz, terminou o pesadelo e o País iniciou o caminho rumo ao progresso.

33 anos é muito e pouco tempo …

Está nos meus projectos ir a Angola (a última vez, foi em 2003) ver com os meus olhos as transformações que, dizem-me, lá se têm vindo a suceder, a velocidade vertiginosa. E aí, terei duas Angola para guardar na minha memória: a dos meus verdes anos (o comboio, em Luanda, passava no final da Vasco da Gama, mesmo junto à Escola Primária nº. 7 e próximo da Câmara Municipal e prosseguia por entre casario e quintais, parando na Maianga e prosseguindo sei lá para onde…) e a dos meus já cansados anos. Serão dois instantâneos que acompanharão o resto da minha existência.

33 anos é uma vida …


Choremos os angolanos, a maioria dos quais anónimos, que não tiveram o privilégio de assistir aos novos tempos.

33 anos…

H. Baptista da Costa

 


33 anos…

Caros compatriotas, associados e amigos

Aceitando um convite que, anteriormente, o senhor Presidente da Republica Portuguesa lhe terá dirigido, vai estar em Portugal, entre os dias 10 e 11 de Março, Sua Excelência o senhor Presidente da República de Angola, Engenheiro José Eduardo dos Santos.

Associando-se a este evento, a Direcção da Casa de Angola deseja apresentar, em nome dos seus associados e de todos os angolanos que porfiam diariamente pelo desenvolvimento deste País que os acolheu, votos de boas vindas ao senhor Presidente da República Eduardo dos Santos.

A Direcção