REFLEXÕES

A fundação da CASA DE ANGOLA remonta a 1971: ela foi a primeira associação que, em Portugal, teve como objectivo congregar os angolanos a viver neste País.

Com um percurso histórico (e até político), algo controverso e eivado de dificuldades, que não vem ao caso aqui recordar, a verdade é que a CASA DE ANGOLA é, entre as suas congéneres, a mais emblemática, a mais representativa e, pelos seus Órgãos Sociais, passaram ilustres Angolanos, alguns dos quais (infelizmente) já falecidos. É certo que também passaram outros que não deixaram saudades. É a vida…

Após este intróito, passo, de imediato, ao problema que mais nos angustia, mais nos aflige: o problema financeiro.

Com é de todos os presentes sabido, a CASA DE ANGOLA sobreviveu, sempre, de subsídios estatais: os primeiros, ainda ao tempo do Estado Português e os mais recentes, do Estado Angolano, já que as receitas obtidas através das quotizações, são absolutamente insuficientes.

Os subsídios que o Estado Angolano, no passado, atribuíu à CASA DE ANGOLA através de empresas públicas (Endiama e Sonangol) não tinham carácter institucionalizado e, salvo erro, terminaram, abruptamente, há sete ou oito anos. Sobreviver todo este tempo, sem esse amparo, foi obra.

As Autoridades Angolanas parece não entenderem o papel que a CASA DE ANGOLA tem vindo a desempenhar no seio da nossa Comunidade a viver em Portugal e, mais, o quão acrescido esse papel poderia ser, se melhor apoiado financeiramente pela Nação.

Se à Embaixada e ao Consulado compete a função administrativa e política de representar Angola, à CASA DE ANGOLA pode, e deve, competir o papel de congregar, associativamente, essa importante parcela da sociedade civil, que é a sua comunidade, independentemente dos credos religiosos, políticos ou partidários, de cada um: Pai rico que obriga filhos a esmolar e a passarem dificuldades, só porque não estão, sempre, de acordo com ele, é pai desnaturado.

O papel que, no contexto da vida da CASA DE ANGOLA, tem vindo a ser desempenhado pela Embaixada (intervindo directamente na constituição de listas em eleições para os seus Órgãos Sociais, apoiando aqueles que gravitam à sua volta e à volta do Partido, dificultando a vida às direcções que lhes não são políticamente simpáticas, etc.), não é, quanto a mim (notem que falo, estritamente, em meu nome pessoal), o que mais dignifica Angola. Aliás, no meu entender é ao Estado Angolano que deve competir prover a CASA DE ANGOLA dos meios financeiros mínimos necessários à sua sobrevivência. Direi mais: as CASAS DE ANGOLA, em Países onde existam comunidades angolanas numerosas, deveriam ser inscritas no Orçamento de Estado. Com esse procedimento, não me repugna reconhecer àquele o direito de acautelar que tais fundos sejam administrados correctamente e, sob sua fiscalização, aplicados aos fins a que se destinam: apoio às comunidades e realização de acções que dignifiquem e promovam a Nação Angolana.

Lisboa, 11 de Janeiro de 2008

H. Baptista da Costa


Reticências …

Os recentes falecimentos de Joaquim Pinto de Andrade e Gentil Viana (curiosamente, ocorridos no mesmo dia e a escassas horas, e ligando o eixo Luanda/Lisboa, à volta do qual se radicou a luta pela independência nacional, nos idos anos de cinquenta, sessenta e setenta), são uma estranha coincidência que, necessariamente, tem alimentado aquilo que constitui uma segunda natureza, dos angolanos: o sobrenatural.

Companheiros de luta, ambos foram nacionalistas de grande integridade pessoal, moral e política, que marcaram, por forma indelével, a História contemporânea de Angola. Com eles morreu algo de insubstituível: a entrega, empenhada, a uma causa inspirada em nobres ideais.

Não sendo, propriamente, oriundos da mesma geração, trilharam caminhos comuns e terão olhado, com compreensível desgosto, os desvios que o após revolução registou. É certo que uma coisa é a luta por algo em que, sincera e abnegadamente, acreditamos e coisa muito diferente é, alcançado esse objectivo, conseguir governar sem ceder a interesses das grandes potências internacionais e de fortíssimos grupos económicos, de tal modo que o amigo e companheiro de armas, de ontem, não se torne num crítico incómodo e ideologicamente adverso, uma verdadeira voz da nossa própria consciência. Esse tema tem sido, recorrentemente, tratado por filósofos e escritores, como é o caso de Jean Paul Sartre na sua (inesquecível) obra intitulada “A Engrenagem”. E com igual problema se defrontou Fidel, perante essa personalidade, ímpar, que foi “Che” Guevara. A verdade é que o primeiro será recordado, quase sempre e por quase todos, como um ditador e o segundo manter-se-á vivo e mítico na nossa imaginação. Se o destino tivesse tecido o trama por forma diferente, é bem possível que hoje estivéssemos perante um “Che”, envelhecido, doente e intolerante, atormentado pela recordação de um Fidel nobre e mártir, há muito desaparecido.

As revoluções têm destas coisas e a revolução angolana, não foi excepção.

De qualquer modo, os angolanos têm que ter consciência do papel, importantíssimo, que os dois notáveis nacionalistas (Gentil Viana e Pinto de Andrade), tiveram na luta pela independência. Lamentável é que personalidades de tão grande dimensão, só sejam homenageadas após a sua morte física e tenham vivido os seus últimos anos, amarguradas e quase esquecidas. É um facto que aqueles que de nós discordam, uma vez desaparecidos, deixam de ser incómodos: homenageá-los, não constitui risco político e até é bonito …

H. Baptista da Costa


Lisboa, 29 de Fevereiro de 2008