ANTÓNIO OLE NA CULTURGEST - LISBOA
“MARCAS DE UM PERCURSO – 1970-2004”
A ENTENDER OS VASTOS SILÊNCIOS DE ÁFRICA
Nascido em Luanda em 1951, António Ole é um dos maiores artistas angolanos actuais. A partir de 13 de Outubro, uma retrospectiva da sua obra, “Marcas de um percurso – 1970/2004”, vai estar patente na Galeria 1 da Culturgest, em Lisboa, de vários modos a coroação de um trabalho que começou nos idos dos fins da década de setenta numa Luanda a regurgitar de iniciativas e veio evoluindo até à actualidade sob o signo da criatividade e modernidade.
O convite foi-lhe feito por António Pinto Ribeiro, até há meses um dos principais responsáveis da programação da Culturgest, e confirmado pelos novos responsáveis. O antropólogo José António Fernandes Dias apresentá-lo-á no catálogo, sendo o comissário da exposição o dr. Miguel Wandscheneider.
Além de pintura, António Ole apresentará uma instalação plástica e outra com vídeo, estando também prevista uma secção dedicada ao cinema, com a exibição de pelo menos três filmes da sua autoria, nomeadamente “O Ritmo do Ngola Ritmos”, “No Caminho das Estrelas” e “Carnaval da Vitória”, produzidos nos finais da década de setenta pela então Televisão Popular de Angola, TPA.
Depois do seu primeiro aparecimento fora de Angola, no Museu de Arte Afro-Americana, em Los Angeles, 1984, os seus trabalhos nunca mais deixaram de circular pelo mercado internacional de arte.
Fotógrafo e realizador de cinemaAclamado internacionalmente também como fotógrafo e realizador de cinema, Ole criou uma obra ímpar no contexto da recente história cultural de Angola, sendo os seus trabalhos mostrados em várias partes do mundo nos mais diversos festivais e bienais de arte.
Entre muitas outras intervenções, participou três vezes na Bienal de Havana (1986, 1988 e 1997), duas vezes na Bienal de Joanesburgo (1995 3 1997), em 1992 foi um dos artistas angolanos que estiveram presentes no Pavilhão Africano na Exposição Internacional de Sevilha e no ano passado algumas das suas séries de fotos foram incluídas na exposição “Structure of Survival”, no Festival de Veneza.
Actualmente, integra, com uma instalação, a exposição “África Remix, Arte Contemporânea de um Continente”, patente no Museu Kunst Plast, de Dusseldorf, Alemanha, até 7 de Novembro.
De certo modo arrastando inicialmente uma problemática muito comum aos artistas africanos, dividindo-se entre a vontade de afirmar as suas raízes africanas e o desejo de absorver e intervir numa cultura ocidental que, afinal, também lhe pertence, António Olé optou por fazer a síntese das duas posições, aproveitando da arte europeia a actualização e a modernidade, a que juntou as possibilidades criativas com que os cânones artísticos africanos continuam a contribuir para a renovação estética da arte.
Rigor e beleza formalSe no início da sua actividade plástica poderíamos reconhecer que o pintor português António Palolo, então numa agência de publicidade em Luanda, teve alguma influência no seu enunciado, pelo menos nos trabalhos que mais directamente eram inspirados na Banda Desenhada, cedo António Olé se libertou, aventurando-se por voos tão altos como a sua vontade de criar ao mesmo tempo com rigor e beleza formal, característica que não abandonará até agora, e tendo como objectivo constante entender os vastos silêncios de África, o continente tão mal amado como fascinante.
Foi o tempo da série de desenhos a tinta-da-China elaborados a partir de negativos fotográficos, estes já por si pensados em função do objectivo, em que não sabíamos o que mais admirar: se a ousadia estética cheia de modernidade, se as qualidades formais requintadas a resvalarem pela perfeição. Estou a lembrar-me, por exemplo, da capa que então produziu para um dos números da revista “ETC”, do conhecido editor lisboeta Vítor Silva Tavares, a pedido do “chicoronho” (apesar dele) Aníbal Fernandes, indelével tradutor de grandes obras da literatura francesa, aliás o “Cabeças” da inolvidável família Farrica, da antiga Sá da Bandeira, da qual ainda agora há representantes no Lubango natal. E não posso também deixar de referir uma ilustração que fez a meu pedido para o suplemento “Artes e Letras” do vespertino “Diário de Luanda”, que nessa altura eu coordenava, extraordinária composição que o maquetista do jornal, o actual editor da “Revista Cultural de Macau”, Rogério Beltrão Coelho, me confiscou “irremediavelmente”.Premiado no Salão de Arte Moderna de LuandaEstá claro que, entretanto, em 1970, apenas com dezanove anos, arrecadará um prémio de aquisição no então prestigiado e difícil Salão de Arte Moderna de Luanda, onde pontificava também o Aníbal Fernandes - que fazia de engenheiro nos Serviços Municipalizados de Água de Luanda - além do Arquitecto Troufa Real, do pintor Carlos Fernandes e do jornalista José Manuel da Nóbrega, então chefe de Redacção do “Notícia”, falecido em Lisboa no ano passado, quando começava a estabilizar como editor responsável da Nova Imbondeiro.
Por sinal, por variadas razões, foi um começo polémico, pois o quadro que apresentou representando o papa Paulo VI a tomar a pílula chamara as atenções de toda a gente. Como dissemos, o quadro foi premiado, mas o Movimento Nacional Feminino é que não gostou da ironia e, alegando «ofensas à Igreja e ao Estado», conseguiu retirá-lo da exposição.
O poeta David Mestre diria sobre este período que, nos anos 70, «António Ole irrompe nos meios artísticos de Luanda, onde imperava o baile de máscaras de uma burguesia inconsolável mas medíocre, velhaca, disposta a vender a cara e a cruz de uma beatífica acção civilizadora que trespassava cabeças humanas na ponta das baionetas, dona zelosa de uma plêiade de naturezas mortas monocordicamente folclóricas e grosseiras guardiãs da sua imagem imaculada»
Da TPA à investigação de materiaisSeguiu-se uma passagem algo acidentada pela TPA, nos tempos da sua fundação, em 1975, onde o Luandino Vieira, então Director de Programas, aposta totalmente na sua criatividade.
Como sempre, o António Ole mostra não ter pressa. Cria primeiro a sua teia. Filma muito. Arrecada. E só depois é que mostra trabalho. É a vez dos filmes que agora serão apresentados nesta mostra. Não será, de maneira nenhuma, um compasso de espera na sua carreira de artista. Foi apenas mais uma experiência.
Entre 1981 e 1985, Ole estudou cultura afro-americana e cinema na Universidade da Califórnia. Como diz José Eduardo Agualusa, «As telas que testemunham a sua passagem pela costa ocidental dos Estados Unidos são intensas e luminosas, habitadas por estranhos animais de olhos de arco-íris, galinhas do mato e homens atónitos».
A seguir, estará pronto para novas experiências e investigações, especialmente a nível de materiais. Pintará com terra, a terra vermelha do solo angolano, a terra sagrada de África, a eterna. Criará as lindas e inesperadas esculturas que substituirão, na Avenida Marginal de Luanda, a estátua do famigerado Vasco da Gama, actualmente a “dormir” na Fortaleza.
Só não acabou por criar mais esculturas destas para Luanda porque, incompreensivelmente, as autoridades preferem artistas norte-coreanos, que, apesar de representarem os heróis angolanos com olhos em bico, como se de seus conterrâneos se tratasse, continuam a proliferar pela sacrificada capital angolana que, apesar de tudo, continua a resistir com a sua beleza de sempre.
Na verdade, como disse o historiador de arte Adriano Mixinge, «Entre finais dos anos 60 e os anos 90, António Olé transfigurou, sucessivamente, as simbologias e o modus faciendi da Pop-Art, da pintura mural Cokwé, materiais residuais (ferro, espelhos, placas de zinco), naturais (ossos, madeiras, mármore) e/ou culturais em geral (vídeos, anjos, princípios Zen, etc)».
Por tudo isto, estou de acordo com o Leonel Moura, quando, ao apresentá-lo numa exposição realizada em 1991 no Atelier Troufa Real, em Lisboa, dizia: «As iniciativas de António Ole, no cinema e nas artes plásticas, devem, para além do valor intrínseco que possuem, ser também entendidas como um acto de dignidade e de crítica. Crítica à desatenção da nossa arte e cultura à extraordinária riqueza africana e dignidade ao expor uma incessante procura da autenticidade num tempo de superficialidade e business. Que o nosso olhar atente sobre o que está inscrito nestas telas».
Assim seja, especialmente agora.
Rodrigues Vaz
1 – “Margem da Zona Limite: Muro na cidade”, instalação feita em 1994-1995 por António Olé (ao meio) com portas, janelas e outros objectos e materiais apanhados no lixo.(Da revista Espaço Africa )ANTÓNIO OLE
ENTENDER OS VASTOS SILÊNCIOS DE ÁFRICAO pintor angolano António Ole entrou polémico no mundo das artes plásticas. Foi em 1970, no IV Salão de Arte Moderna de Luanda. Ole, com apenas dezanove anos, chamara as atenções de toda a gente com um quadro
representando o Papa Paulo VI a tomar a pílula. O quadro foi premiado, mas o Movimento Nacional Feminino é que não gostou da ironia e alegando "ofensas à Igreja e ao Estado" conseguiu retirá-lo da exposição. Hoje, Ole recorda o episódio com um sorriso. Muitas águas correram desde então.
António Ole, continuou a pintar. Viajou, fez rádio, televisão e cinema. Na constante aventura que é o viver-se angolano, Ole multiplicou-se, deixando o seu nome associado a algumas das mais interessantes iniciativas que aconteceram em Angola. Em 1974, integrou a equipe de "Contacto Popular", um programa radiofónico feito com fogo e com alma. Em 1975 é admitido como realizador de programas na Televisão Popular de Angola. Viaja extensamente pelas florestas do Norte e pelas chanas do sul; na Luanda, na Huila ou no Namibe, dá-se à descoberta do país profundo. Interroga os sinais secretos que prosperam nos desenhos na areia dos chokwe e na arte funerária dos muila. Busca o futuro no entendimento do passado. Pinta, pinta sempre e a sua pintura começa a crescer, contaminada pelo mistério e pêlos vastos silêncios de África."
Entre 1981 e 1985, Ole estudou cultura afro-americana e cinema na Universidade da Califórnia. As telas que testemunham a sua passagem pela costa ocidental dos estados Unidos são intensas e luminosas, habitadas ,por estranhos animais de olhos de arco-íris, galinhas do mato e homens atónitos.
Quando regressou a Luanda tinham desaparecido as árvores e a cidade estava triste, com as casas sujas e destroços pelas ruas. Nas Praças, os tanques continuavam a substituir as estátuas, e dizia-se que no Quinaxixe os coreanos iam construir um novo monumento à guerra. António Ole quis mostrar que a alegria ainda era possível e ofereceu à sua cidade uma enorme escultura em ferro pintado. Ela lá está, em plena marginal, a espantar o dia.
A última exposição que António Ole realizou em Lisboa voltou a surpreender. Sendo ainda o
mesmo, é um outro Ole que ali se revelou. As telas, quase todas pintadas na ilha do Mussulo, guardam o mistério da terra de Angola. E esta não é uma simples figura de estilo: as telas foram construídas com as areias rubras de Luanda, numa técnica desenvolvida pelo pintor. Daí o título da exposição: "Terra Parda, Terra Mista". Dizendo de outra forma: terra de Angola.José Eduardo Agualusa
ANTÓNIO OLE
Nasceu em 1951, em Luanda, Angola.
Divide a sua actividade entre as artes plásticas (pintura e escultura) e cinema.
Estudou cultura afro-americana e cinema na UCLA, Universidade da Califórnia (1981-1985).
É diplomado pelo Center for Advanced Film Studies do American Film Institute.
O Semanário Expresso na edição de 13 de Novembro de 2004 publicou na secção "Exposições" da revista "Actual" este artigo que aqui reproduzimos
O elogio da mistura
A obra em permanente mudança de um artista angolano na carreira internacional
Texto de Celso Martins
Africano, lusófono, ilustrado e viajado. António Ole escapa às definições rígidas e aos lugares-comuns com que é habitual perceber os artistas africanos, tantas vezes ainda remetidos para um nicho dedicado às curiosidades exóticas.
A revisitação da sua obra, actualmente na Culturgest — que percorre a produção dos anos setenta à actualidade — permite encontrar um criador difícil de etiquetar, ao mesmo tempo que nos ensina que é necessário aplicar uma leitura dinâmica a contextos artísticos que se tomaram mais fluidos e escapam a dicotomias estanques como as que dividem o mundo entre o Ocidente e o resto. Esta condição específica terá tido importância no reconhecimento internacional de que goza e que lhe permitiu expor, por exemplo, nas Bienais de São Paulo, Joanesburgo e Veneza ou ser incluído em Exposições do MoMA de Nova Iorque.
Nascido em 1951 numa família de classe média angolana, António Oliveira viveu toda a sua vida sob o signo da mestiçagem. Cresceu no contexto colonial português, frequentou o liceu, viveu a repressão colonial e a descolonização e pôde estudar cinema nos EUA, voltando depois à dramática realidade angolana. A sua história, e a obra reflecte-o abundantemente, é feita destas intercepções e conflitos» de um sentido de origem permanentemente posto à prova.
Talvez por isso, «Marcas de Um Percurso», o nome que leva a sua apresentação em Lisboa, seja um título feliz. Por um lado, identifica o espírito retrospectivo da exposição; por outro, deixa antever que a obra de António Ole foi crescendo de um modo heteróclito, lançando mão, a cada momento, de estratégias e processos muito distintos ao sabor de cada etapa criativa. Pintura, escultura, fotografia, filme, vídeo e instalação: Ole utiliza todos os meios à sua disposição para produzir uma arte culturalmente híbrida que incorpora valores e influências de diversas proveniências, mas que permanece atenta ao que mais directamente a interpela.
Esse é aliás um dos factores que empresta um carácter distintivo ao seu trabalho: uma tensão permanente entre a atenção ao «local» e às suas
contingências que é guiada por um olhar muito mais abrangente e que por isso escapa quase sempre aos clichés da «arte africana». Não obstante o seu cosmopolitismo, esta é uma obra fortemente marcada pela presença de África — das suas cores, das suas texturas, das suas paisagens, dos, seus problemas.
A exposição, que segue genericamente um fio cronológico, dá-nos conta disso, abrindo com uma pintura de 1970 intitulada Sobre o Consumo da Pílula, em que Ole utiliza os meios gráficos habituais na BD incorporando a figura do Papa Paulo VI numa composição caótica que fez escândalo na Luanda colonial. Essa pintura acusa já uma complexidade e uma capacidade de utilização de signos em rede que se prolonga num conjunto de guaches de composição magritiana intitulados Paisagens Domésticas, aí conjugando, de modo muito livre e surreal, elementos do quotidiano, da política ou da história da arte ocidental.
A exposição acusa depois um hiato de dez anos correspondente ao período pós-colonial em que Ole concentrou as suas energias na transformação social e política, através do cinema (pode ver-se na exposição o filme O Ritmo do N'Gola Ritmos, 1979). O regresso à pintura faz-se em 1984, com uma produção mais próxima de um estereótipo visual africano com suas sinaléticas vivas e imagens «primitivas» adaptadas a um contexto muito gráfico.
Cronologicamente, o desfecho deste ciclo criativo está intimamente ligado a um momento importante do seu percurso: a passagem por Los Angeles onde se licenciou em cinema. O regresso a Luanda vai corresponder a uma abertura radical da sua obra a múltiplas formas de comunicação, certamente instigada pelo ambiente criativo que encontrou do outro lado do Atlântico, mas renovadamente empenhada em enfrentar a realidade angolana.
Paralelamente à prática da pintura, agora mais telúrica, com utilização da palavra ou já sob o formato da colagem e da «assemblage» em caixa (Cornell terá sido uma influência?), Ole vai desenvolver uma produção no campo da fotografia (que já o interessara na juventude) e da instalação multimédia que é particularmente feliz pelo modo como cria estratégias familiares às vanguardas e neovanguardas europeias num contexto africano. A fotografia será um instrumento decisivo: paralela a levantamentos seriais de aspectos paisagístico-arquitectónicos, Ole usa a fotografia como instrumento de recolecção de objectos num exercício que acaba por funcionar como uma arqueologia da vida material Angola na. E também essa mesma realidade — nomeadamente a arquitectura materialmente empobrecida mas imaginativa dos musseques — que as suas instalações encenam, no seu festival de cores e improvisos plenos de uma vitalidade observável, por exemplo, em Township Wall n° II que realizou para esta exposição.
A estas, juntam-se dimensões menos dependentes da observação urbana, como as «assemblages» que incorporam coisas tão díspares como madeira queimada, velhos documentos coloniais e imagens fílmicas e que penetram na memória mítica e ancestral de Angola com um olhar contemporâneo.
Se quisermos, então, encontrar um ponto comum a uma obra que, nos melhores e piores momentos, aceitou sempre a contaminação e a mudança, podemos falar desta orquestração de tempos, de memórias e de contextos e da valorização da mestiçagem como lugar de diálogo e compreensão de conflitos.
Marcas de Um Percurso (1970/2004) de António Ole
Culturgest, até 23 de Dezembro
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