ELEMENTOS PARA A HISTÓRIA DA CASA DE ANGOLA EM LISBOAAté à celebração do protocolo entre a Câmara Municipal de Lisboa e os associados da Casa de Angola, no dia 4 de Outubro, (1996) para a devolução do edifício-sede, percorreu-se um longo caminho.
UMA NOVA LARGADA
Por Carlos Belli-Bello *
Recordemos que “um grupo de angolanos tem insistido junto do Sr. Embaixador Rui Mingas para que desenvolva iniciativas no sentido da reactivação da Casa de Angola. Nesse âmbito, realizou-se, no dia 25 de Novembro de 1994, uma reunião onde se procedeu a uma troca de informações e de pontos de vista sobre a matéria”.
Nesta reunião, que teve a participação de um conjunto de angolanos residentes em Portugal, foi constituído um grupo de trabalho que decidiu realizar o encontro com membros fundadores e antigos titulares dos corpos directivos da Casa de Angola para se traçarem estratégias e as acções no futuro próximo para a sua reactivação. Foi percorrido um longo e penoso caminho até se encontrarem soluções para a gravíssima situação em que a Casa de Angola vivia desde a sua ocupação por famílias cabo-verdianas.
Esta situação, do conhecimento das autoridades portuguesas, preocupava todos os angolanos residentes em Portugal que ainda se interessam pelas suas raízes e que mantêm vinculo profundo com a mãe-pátria.
Há muitos anos que este grupo de angolanos solicita aos responsáveis da CML os seus bons ofícios e soluções para a recuperação do edifício. Não deixamos de “incomodar” e de “importunar”, à boa maneira angolana, os responsáveis camarários, porque acreditamos que a Casa de Angola tem horizontes compatíveis com a melhor tradição ehistória das associações africanas em Portugal, onde a presença de nacionais angolanos pontificou, como seja a Casa de África, o Centro de Estudos Africanos, o Clube Marítimo Africano, a Casa dos Estudantes do Império, a própria Casa de Angola e, muito recentemente, associações como a Unangola, a Liangola, a Liafrica, a Acima, a Asa, a Aama, as Acácias Rubras.
Seria uma grande irresponsabilidade da nossa parte afirmarmos que os grandes desafios que nos aguardam com a recuperação vão ser fáceis! Hoje podemos afirmar -e isto sem receio de faltarmos à verdade - que nada será possível na Casa de Angola sem a colaboração e empenho de todos aqueles que a sentem e que assumem, solidariamente, a grande responsabilidade pelo futuro da Casa de Angola. Desde que, incentivados pelo Dr. Corrêa Mendes, nos juntámos ao grupo dinamizador da recuperação do edifício, temos pugnado por objectivos nobres que visem, com o máximo de dignidade, a sua devolução aos sócios, insistindo sempre na gran-da- importância de se estabelecer uma colaboração e uma cooperação estreita com a nossa Embaixada em Lisboa, representante legítima dos interesses do Estado angolano em Portugal, num verdadeiro espírito de osmose e de inter-dependência.À nossa Embaixada compete, em primeiro lugar, tratar com Portugal os assuntos de Estado e à Casa de Angola compete, em colaboração estreita com a Embaixada, tratar dos assuntos que dizem respeito à comunidade angolana em Portugal, em uníssono com as actuais associações representativas da comunidade e da diáspora angolana.
Em todas as reuniões que tivemos o privilégio e participar, insistimos neste ponto: a Casa de Angola não substitui a mbaixada nem as associações comunitárias angolanas! Outro ponto que, igualmente, icou claro foi que todos queremos uma Casa de Angola aberta a todos os ngolanos e aos amigos de Angola, uma Casa de Angola abrangente que represente odos aqueles que amam e sintam Angola, uma Casa de Angola ecuménica onde ada cidadão angolano e cada amigo de Angola sinta-se na sua própria casa.
Com assinatura deste protocolo de restituição do edifício-sede, assinado de maneira solene entre o Dr. João Soares, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o Embaixador Dr. José Patrício e o Dr. Júlio Corrêa Mendes, coordenador do grupo de trabalho, a estratégia definida para assegurarmos o seu regresso está em fase de execução final.
Foi sem dúvida uma batalha difícil onde tivemos de vencer as forças da inércia e do imobilismo, muitos obstáculos burocráticos, tivemos de unir os velhos e os novos associados da Casa de Angola à volta de um primeiro objectivo fundamental e primordial: a restituição da nossa Kubata. A nossa grande vitória foi, sem dúvida nenhuma, no sentido de, nos momentos particularmente difíceis nesta longa marcha, termos sabido unir todos os angolanos, toda a grande família angolana em Portugal, atermos sabido sensibilizar as nossas autoridades angolanas através dos embaixadores Rui Mingas e José Patrício e, sobretudo, de nunca termos desistido
Os novos estatutos aprovados em reunião de Assembleia-geral, elaborados em consonância com a nova realidade da afirmação inequívoca da soberania angolana, consagrada formalmente em 11 de Novembro de 1975, veio igualmente demonstrar na prática que os laços de amizade que nos ligam a Portugal estão, afinal, muito para além dos antagonismos e conflitos que existiram no passado quando, em 1971, um grupo de “mais velhos” fundou a Casa de Angola, e que se compreende. Como disse o Presidente da República de é nesse sentimento, de que a língua comum é apenas a expressão mais alta, que acho que deve assentar a nossa cooperação presente e futura, para benefício recíproco de dois povos que se estimam e respeitam". Estes estatutos são a clara demonstração do espírito inovador angolano, do seu querer manter, através da Casa de Angola, relações de fraternidade e amizade com Portugal, com os portugueses e com os amigos de Angola.
Dentro em breve, com a Casa de Angola arrumada, iremos oferecer simbolicamenie a nossa chave ao Presidente da República de Angola que esteve sempre, de maneira firme e, decidida, ao nosso lado, no exercício das suas altas funções como primeiro mandatário da Nação Angolana e como nosso legitimo associado.
Foi um interlocutor válido junto das autoridades portuguesas, sensibilizando-as para a rápida restituição do edifício aos seus legítimos proprietários, como afirmou no discurso pronunciado em Luanda, a 8 de Janeiro de 1996, durante a visita do Presidente português, Dr. Mário Soares: "Sei por exemplo que estão em cursor diligências, cuja resolução está dependente apenas da autorização das entidades autárquicas locais, com vista à recuperação, pela respectiva associação, do imóvel pertencente à "Casa de Angola", criada em 1971. Para além do evidente simbolismo que esse edifício encerra, nele se poderiam empreender muitas das acções de apoio aos angolanos em território português."
É nesta linha de pensamento que pensamos ajudar o grupo dinamizador da Casa de Angola a encontrar uma metodologia que permita a escolha daqueles entre nós que terão a responsabilidade de dirigir os destinos da Casade Angola nos próximos tempos.
Estamos pois a abrir as portas que nos irão levar a um novo ciclo na história da Casa de Angola e estamos certos de que, coesos e unidos fraternalmente, poderemos construir as bases sólidas indispensáveis para que a nossa Casa de Angola cumpra com os nobres objectivos que defendemos com generosidade e dignidade e que se enquadram na nossa longa tradição de homens que já se libertaram das trevas e do obscurantismo da cultura.A Casa de Angola será pois um espaço de convívio e de diálogo fraterno. O elo de ligação com a nossa terra, um local privilegiado onde todos os angolanos e amigos de Angola poderão informar-se da realidade do nosso país, ter acesso a leituras de obras do nosso país, jornais e revistas. A cultura angolana estará sempre presente através da realização de seminários, palestras, colóquios, etc. Os nossos artistas, músicos e compositores terão um espaço onde poderão expor as suas obras e dar livre curso à sua imaginação. Uma Casa de Angola de permanente convívio fraternal, para que os angolanos se sintam ligados à mãe-terra e os amigos de Angola sintam o desejo de visitarem Angola. A Casa de Angola será uma antena de Angola e fornecerá, graças à tecnologia moderna, uma informação objectiva e detalhada sobre a realidade da nossa terra e criará um elo permanente com Angola e com o Mundo.
Para cumprirmos com estas tarefas gigantescas precisamos da boa vontade de todos os angolanos em geral, dos associados em particular e os amigos da Casa de Angola não devem parecer indiferentes.
A Casa de Angola vive um momento crucial da sua história, da sua II República que não é compatível com o alheamento. Que cada um de nós traga mais um outro para tornarmos maior a Casa de Angola.
Devemos estar todos de parabéns, devemos felicitar o grupo dinamizador da recuperação da Casa de Angola por ter conseguido, graças à contribuição de todos nós, graças à ajuda inestimável das nossas autoridades, muito particularmente dos embaixadores Rui Mingas e José Patrício, e também, há que reconhecê-lo, à boa vontade do actual presidente da CML. Todos os presidentes anteriores da CML fizeram grandes esforços para tentarem resolver o problema da restituição da Casa de Angola, mas foi o Dr. João Soares que, no seu estilo inconfundível de trabalho, tomou a peito as nossas justas e legítimas reivindicações e, em conjunto com o Dr. Júlio Corrêa Mendes, tomaram possível este nosso velho sonho: termos de volta a nossa Kubata.
Os nossos compatriotas, a maioria deles estudantes em Portugal, que em 1974, em sintonia perfeita com o sentir do nosso povo, legitimaram a ocupação da Casa por homens como Venâncio de Moura, João Filipe Martins, Manuela Pitra, Aguinaldo Jaime, João Landoite Lourenço, José Leitão da Costa e Silva, José Victor de Carvalho, Carlos Amaral, Januário Domingos, Comélio Caley, Paulo Tchipilica, Urbino Jacinto, podem sentirem-se orgulhosos porque hoje temos de novo a Casa de volta, em circunstâncias diferentes, é certo, mas na grande tradição das actividades do Centro de Estudos Africanos, do Clube Marítimo Africano e da Casa dos Estudantes do Império.
Valeua pena!PROTOCOLO
A Casa de Angola é uma associação sem fins lucrativos que pretende reunir os angolanos e naturais de Angola para promover a divulgação cultural, económica e social do nosso país. O edifício onde se localiza esta antiga e famosa associação, na Travessa da Fábrica das Sedas, n° 7, em pleno coração da capital portuguesa, foi ocupado, em 1975, por cidadãos cabo-verdianos pressionados pelas dificuldades vividas naquele período.
Este facto obrigou a Casa de Angola a estabelecer um endereço provisório, na Avenida António José de Almeida, 30 - 2°, enquanto procurava solucionar a devolução da sua sede social, propriedade desta associação, com a Câmara Municipal de Lisboa.Após diversas diligências foi assinado um protocolo entre as entidades interessadas - representadas pelo presidente da Câmara lisboeta, João Soares, por um membro da direcção da Casa de Angola, Júlio Corrêa Mendes, e por José Patrício, embaixador angolano em Portugal - visando a devolução e recuperação arquitectónica. O realojamento dos seus actuais ocupantes é um compromisso assumido pela Câmara de Lisboa, devendo concretizá-lo, em condições satisfatórias e condignas, no prazo máximo de trinta dias após a assinatura do protocolo. Quando o prédio se encontrar devoluto, a Casa de Angola começará a promover a sua recuperação estrutural e arquitectónica com base em estudos, projectos e processos de licenciamento, respeitando as características originais do imóvel. O técnico que se encarregará de iniciar o projecto de arquitectura e que coordenará todos os projectos necessários à execução da obra e respectivo licenciamento, será escolhido, de comum acordo, pela Casa de Angola e pela edilidade lisboeta.
O primeiro passo da associação angolana, ao receber a sua velha sede, será montar um estaleiro e avançar com as obras no mais curto tempo possível. Esta iniciativa beneficia do apoio camarário lisboeta no que respeita a todos os procedimentos legais e administrativos que exijam a intervenção da autarquia para a concretização deste velho sonho da Casa de Angola.
* Membro do grupo de coordenação da recuperação da Casa de Angola
Este artigo foi públicado na revista da Embaixada de Angola em Lisboa "Angola Informação" no Nº 3 de Novembro de 1996ACHEGAS PARA A HISTÓRIA DA CASA DE ANGOLA
Por:Rodrigues Vaz
Constituída em escritura no dia 25 de Junho de 1971, em Lisboa, na Rua da Escola Politécnica. 255. 1° dto, a Casa de Angola foi, antes de mais, o produto da vontade de um grupo para quem o convívio e a reunião das gentes de Angola era essencial para manter acesa a chama da angolanidade e também para debelar as saudades da distância.
- Mas, embora não o pudéssemos dizer claramente, a fundação da Casa de Angola também teve a ver com arranjar um fórum onde de alguma maneira acabássemos por chamar a atenção para o problema que naquela altura já era Angola, chamar a atenção para as suas realidades. Infelizmente, da parte dos governantes da época, embora alguns deles manifestassem alguma compreensão e até abertura, não houve a necessária correspondência - diz-nos Fernando da Silva Laires, o único dos fundadores outorgantes da escritura que continua a morar em Lisboa.
A ideia da criação da Casa de Angola nasceu de um encontro, três anos antes, entre Fernando Laires e o comendador Burity da Silva - avô do actual Ministro da Educação de Angola - que tinha sido deputado na Assembleia Nacional e que. embora integrado nas estruturas governamentais de então, nem por isso deixou de se bater sempre por uma Angola independente, onde coubessem todos os angolanos.
No início as dificuldades foram imensas. O Ministro do Ultramar de então, Prof. Silva Cunha, pôs sempre os maiores entraves. Mas o facto de o comendador Burity da Silva ter sido deputado e continuar a ter muitas relações levaram-nos a aproveitar essa condição, pelo que os dois traçaram uma estratégia que foi a de convidar para o Conselho Geral as várias entidades com peso a nível de governo para diminuir as dúvidas que houvesse sobre os seus propósitos. Ao mesmo tempo que aproveitavam para sensibilizar essas mesmas individualidades para o que se estava a passar em Angola.
O Prof. Silva Cunha foi sempre o mais renitente. Desconfiava de tudo e de todos os que quisessem reunir os angolanos na diáspora. Mas em breve arranjaram aliados de monta. O Ministro das Corporações, Baltazar Rebelo de Sousa, ligado à família Catonho Tonho. de Luanda, não só prometeu apoio logístico como transmitiu um interessante apoio com o seu entusiasmo para que a Casa de Angola fosse para a frente. E o Ministro de Estado, António Correia de Oliveira, simpatizante da Causa Monárquica a que também pertencia o comendador Burity, dialogou com franqueza, durante quatro horas, com os dois promotores iniciais, a que já se tinha juntado, na ocasião, o Alberto Lemos Júnior.
- Será este último elemento que leva para o grupo o Emílio Simões de Abreu, natural da Humpata, então alto funcionário da administração colonial, que no início duvidou da exequibilidade do projecto, mas logo que viu tudo estruturado e analisou a estratégia adoptada integrou-se logo no grupo e será até o que vem a arranjar os maiores apoios económicos para a Casa de Angola, pois só durante uma sua visita a Angola, conseguiu das entidades governamentais a bonita soma de 15.000 contos, uma fortuna para a época, que deu para comprar o prédio inicial, para onde voltou agora a sede, na Travessa da Fábrica da Seda, 7, em Lisboa, por 9.000 contos, como para se ter o interessante pecúlio de 6.000 contos, que a tal ascendia o nosso depósito bancário quando da eclosão do 25 de Abril - precisa Fernando Laires.
Quem virá a redigir os estatutos e colaborara na fundação será o Dr. Fernando Olavo Gouveia da Veiga, juiz conselheiro natural do Lubango, que foram buscar no sentido de debelar as dificuldades que continuavam a surgir dos mais variados lados. E como fundadores, além deste núcleo inicial, aparecerão ainda os advogados Raimundo Traça, de Luanda, que nos últimos anos trabalhou em Macau, assim como Alexandrino Amándio Coelho, actualmente com negócios em Luanda e Nova York
Logo após o 25 de Abril, em 1974, era o actual presidente da Direcção da Casa de Angola, dr. José João Oliveira um dos vice-presidentes, houve a ocupação das instalações por um grupo que integrava elementos que mais tarde vieram a fazer parte de governos em Luanda e outros que actualmente integram o elenco governamental português. A ocupação aconteceu numa noite, e teve a presença do então major Jaime Neves, que apareceu com Chaimites, como se de uma guerra se tratasse.
- Como membro vitalício do Conselho Geral acabei por me impor e convencer o Jaime Neves de que o melhor era alguém responsabilizar-se, para que a Casa de Angola não ficasse ao deus-dará. Depois de receber instruções da Pontinha, acabou por anuir, assinando ele próprio também a acta da assembleia que então se realizou - acrescenta ainda Fernando Laires.
Mas veio finalmente a independência de Angola, em Novembro de 1975, e os entusiastas daquele período acabaram por ir para Angola, deixando ao abandono a Casa de Angola. Passados uns dias uma bomba acabará por danificar as instalações, levando a que ninguém mais se preocupará com aquilo durante muitos anos.
Em 1991 o Fernando Laires recebe a visita do dr. Paulo Tchipilica, que lhe dá conta do seu interesse em voltar a por em funcionamento a Casa de Angola. Ainda se fizeram algumas reuniões preparatórias, mas em 1992 este advogado é chamado para integrar o governo de Angola como Ministro da Justiça.
Até que depois aparece finalmente um grupo que consegue reactivar a Casa de Angola, devolvendo-lhe a dignidade que merecia. Guardamos isso para o próximo boletim, a sair em breve.
![]() |
||||||||||||||
![]() | ![]() |
|||||||||||||
![]() |
||||||||||||||